Tuesday, August 23, 2016

Jazz : A harmónica de Toots calou-se




 Toots Thielemans, 30ª edição North Sea Jazz Festival à La Haye,
 créditos: Rick Nederstigt/AFP 2005



"Guitariste, harmoniciste, siffleur (tout un rôle dans le jazz classique), Jean-Baptiste « Toots » Thielemans s’est éteint dans son sommeil, lundi 22 août, à l’âge de 94 ans."

Le Monde

O músico de jazz Toots Thielemans, considerado a referência mundial da harmónica, morreu ontem, serenamente suponho, durante o sono. Um mês depois de ter sido hospitalizado devido a uma queda.

O músico belga sofrera em 1981 uma trombose que quase o impediu de tocar guitarra, e a asma deixou de lhe permitir 'o assobio' - outro dos 'instrumentos' que o distinguiam - mas a harmónica continuou sempre. 

"No meu corpo, os meus lábios continuam jovens." 

Toots



Toots Thielemans
créditos: Tom Pich

Toots Thielemans, de seu nome Jean-Baptiste Frédéric Isidore Thielemans nasceu a 29 Abril 1922 em Marolles, Bruxelas, em 1922. Ganhou grande notoriedade como harmonicista quando se juntou a uma digressão da orquestra do norte-americano Benny Goodman, na Europa, em 1950.

Jovem, entrou para a universidade para ser professor de Matemática, mas desistiu rapidamente. A culpa foi de uma harmónica, o instrumento que o levou para o jazz e que o tornou famoso.

Tocou com grandes referências do jazz, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Ella Fitzgerald

" Mas a maior recordação foi tocar com o saxofonista Charlie Parker. "Não fui eu que lhe liguei a pedir para tocar com ele, foi ele que me chamou."

Toots




Tocou também com Elis Regina - com quem gravou Aguarela - Caetano, Gilberto Gil, Milton Nascimento. Nomes inesquecíveis da Bossa Nova.

Ao falar da sua carreira, Toots Thielemans destacou, também, essa fase brasileira. 

“A evolução da música brasileira é muito paralela à do jazz. Bossa nova era bebop.” 

Toots, Público




Gravou ainda com músicos como Billy Joel, Nick Cave, Pat Metheny, Natalie Cole

Bluesette (1962), um dos meus temas favoritos, tornou-se um imenso sucesso. Aí misturam outros dos seus 'instrumentos' preferidos,  a guitarra e o assobio.

Os músicos mais conceituados convidaram-no para 'dialogar'. Bill Evans en 1978 (The Other Side of Midnight), Martial Solal en duo (1991).

Muitos dos seus discos foram registados com Bill Evans. De tudo o que fizeram juntos, segundo o Le Soir, Toots Thielemans gostava particularmente de Affinity.


Bill Evans & Toots Thielemans
 Affinity (1979 Album)

Como músico independente, tocou com Peggy Lee, Paul Simon, Quincy Joneso incomparável pianista Oscar Peterson, com quem o vimos em Montreux. Ainda com Frank Sinatra, Ray Charles, Larry Schneider, Stevie Wonder, ou Sting e Pat Metheny

Metheny ainda esta noite o homanegeou na sua página oficial no Facebook com este tema lindo Alaways and Forever (1992):




Deu ainda aulas na Eastman School of Music de Rochester (Nova Iorque).

Toots compôs e interpretou várias temas para filmes, sendo o mais célebre Midnight Cowboy (1969).

Foi o primeiro músico a dar nobreza à harmónica cromática, esse pequeno instrumento de 15 cm de comprimento, difícil de dominar.

Seu nome 'Toots' era uma homenagem aos músicos Toots Mondello e Toots Camarata.

En 2012, e apesar das sua saúde debilitada, Toots Thielemans triunfou mais uma vez no Palais des Beaux-Arts de Bruxelles, em concerto para celebrar o seu 90º aniversário, antes de partir em tournée para os Estados Unidos e Japão.

Até que em 2014 decidiu terminar sua carreira "afin de ne pas décevoir son public", sentindo-se já muito debilitado de saúde.



Toots Thielemans
créditos: Público
Casa da Música, 2005

Esteve em Portugal, em 2005, já com 83 anos, onde tocou no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém.  E, na Casa da Música! Aí tive a felicidade de o ouvir ao vivo. 

Foi o êxtase completo na sala Suggia. O silêncio caiu sobre a sala para que o som da sua harmónica não fosse adulterado, e a melodia soasse cristalina de modo a ser sorvida, no mínimo detalhe.

Reconheço que tenho sido uma privilegiada no campo da música e dos maiores vultos que já passaram pela cidade do Porto. Outros que fui ouvir a Lisboa.

Na cultura, nunca é demais investir para apaziguamento dos nossos desassossegos mais enraizados. Só a música, acima da literatura e da pintura tem esse dom de sintonizar a nossa alma com o ser que habitamos.

"Je peux affirmer sans hésitation que Toots est un des plus grands musiciens de notre temps. Il joue avec son coeur et vous fait pleurer."

Quincy Jones

G-S

Fragmentos Culturais

23.08.2016
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Saturday, July 23, 2016

Dos livros e das leituras em tempo de Verão




Soutine
crédits: Musée de l'Orangerie
https://www.facebook.com/museedelorangerie/

"Nunca a vida foi tão actual como hoje: por um triz é o futuro. "

Clarice Lispector, Um Sopro de Vida

Já escrevi por aqui. Gosto de literatura mais leve (não confundir com light) em tempos de verão. Livros que ajudem a pensar em quase nada, ou que nos levem a querer mudar um pouco a vida e a dar-nos algumas ideias frescas nestes dias de lazer.

Detenho-me em dois autores que andaram recentemente nos média. Por bons motivos. Claramente.



David Machado
créditos: Hugo Amaral/ Observador

Então, começo por voltar a David Machado, um dos onze vencedores do European Union Prize for Literature 2015, prémio que foi criado para consagrar os "novos ou emergentes autores da Europa".

Há bem poucas semanas David Machado viu de de novo o seu livro Índice Médio de Felicidade galardoado desta vez em Itália com o Premio Salerno Libro d’Europa”. 


Índice Médio de Felicidade
David Machado
Edições Dom Quixote, 2013

Índice Médio de Felicidade é um romance admirável e extremamente actual sobre um optimista que luta até ao fim pela sua vida e pela felicidade daqueles que ama. 

Dramático, realista, mas com momentos hilariantes, fala da esperança e confirma o talento de David Machado "como um dos melhores ficcionistas da nova geração de autores de literatura portuguesa."



Índice Médio de Felicidade
David Machado

Em 2013, já depois de ter abordado o tema da felicidade neste livro Índice Médio de Felicidade, David Machado afirmou, numa entrevista, que no seu entender, "as pessoas, em geral, não levam a questão da felicidade muito a sério"

"Toda a gente diz que quer ser feliz, mas não pensa seriamente sobre isso."

David Machado

Para os mais curiosos, poderão ler online o primeiro capítulo.




Luís Sepúlveda
créditos: Orlando Almeida/GlobalImagens

O escritor chileno Luís Sepúlveda venceu a 12.ª edição do Prémio Eduardo Lourenço. O galardão foi anunciado no 24 Junho, na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço na Guarda. Luís Sepúlveda recebeu o Prémio no dia 1 Julho 2016 na Biblioteca no Encontro... com Luís Sepúlveda.




Prémio Eduardo Lourenço 2016

O júri entendeu, 'por consenso', entregar o prémio a Luís Sepúlveda, "pela sua vastíssima obra, que, sendo uma obra universal, também tem dentro dela o iberismo, no fundo, que é o espírito do Prémio Eduardo Lourenço".

Luís Sepúlveda, sessenta e sete anos, sonha um dia contar histórias junto ao rio, como o tio-avô Ignacio




O velho que lia romances de amor
Luís Sepúlveda, 1989


“- Olha, com toda a confusão do morto já quase me esquecia. Trouxe-te dois livros.
Os olhos do velho iluminaram-se.
- De amor?
O dentista fez que sim.
António José Bolívar Proaño lia romances de amor, e em cada uma das suas viagens o dentista abastecia-o de leitura.
- São tristes? – perguntava o velho.
- De chorar rios de lágrimas – garantia o dentista.
- Com pessoas que se amam mesmo?
- Como nunca ninguém amou.”

in O velho que lia romances de amor, Luís Sepúlveda

Enquanto esse dia não chega, Sepúlveda vai escrevendo contos, e segue a profissão de escritor que "leva muito a sério". 

Eu adoro a arte do conto. Não é tão fácil quanto parece escrever contos. Exige concisão da trama narrativa.

E em tempo de férias, gosto de ler contos (não apenas). São leves, mais soltos, apresentam maior flexibilidade do que o romance (meu género literário preferido), e podem aproximar-se da poesia (cf. prosa poética) e da crónica. Não confundir conto com novela, no entanto.

Então, a última obra literária de Luís Sepúlveda é mais um conto. História de um cão chamado Leal, editado em Junho 2016 e que começou a sua viagem aqui no Porto, Casa da Música (vídeo com o autor).





História de um cão chamado Leal
Luís Sepúlveda, 2016

"Na companhia de Aukamañ, um rapazinho mapuche, Afmau aprende a conhecer o mundo que o rodeia e a respeitar a diversidade da natureza. (...) uma fábula maravilhosa e naturalista onde o escritor reflecte sobre o peso do passado e da memória, a força da amizade e da solidariedade e o respeito pela Terraela habitam." 

Nota: Afmau significa 'leal e fiel' na língua mapuche.

Um cão chamado Leal é uma fábula naturalista que homenageia o povo mapuche, mas não só. É um livro sobre um valor fundamental. O valor da lealdade.

Voltando ao tema da felicidade, há um outro livro que chamou a minha atenção. Uma ideia de felicidade de Luís Sepúlveda e Carlo Petrini (sociólogo italiano que fundou o movimento Slow Food). Ainda Sepúlvedaautor do livro História de um Caracol que Descobriu a Importância da Lentidão.





História de um Caracol que Descobriu a Importância da Lentidão
Luís Sepúlveda, 2015

Carlo Petrini partindo da ideia que a busca da felicidade não é imediata.  E que alcançá-la é uma tarefa lenta, pausada, quase tão lenta como a marcha de um caracol convida Sepúlveda para "conversa tranquila onde se interligam memórias, experiências e reflexões sobre o que é a felicidade e como conquistá-la".




Uma ideia de felicidade 
Luís SepúlvedaCarlo Petrini, 2014

Muito curiosa acerca deste último livro que procurarei na minha próxima passagem por uma livraria.

"Até mesmo a felicidade se tornou uma coisa rara, quase tabu, sufocada pelas crises económicas, políticas e morais. É preciso coragem para falar sobre ela."

Raffaella Caprinali, Recensione Libro

G-S

Fragmentos Culturais
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23.07.2016


Sunday, July 3, 2016

Ah o medo




ilustração: Messia
via Martel Clément/ Le Monde

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
... ...

Alexandre O'Neill, O Poema Pouco Original do Medo

G-S

Fragmentos Culturais

15.07.2016
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Serralves : Jazz no Parque começa hoje






25ª edição Jazz no Parque
Serralves

Jazz no Parque
, na sua 25ª edição, tem lugar nos jardins de Serralves. Mais propriamente no campo de Ténis, junto à Casa de Chá. Concertos sempre às 18:00 horas.

"No ano em que o Jazz no Parque chega à sua 25ª edição, a data comemora-se com uma dedicação especial à 'prata da casa'."

Fui sempre ao longo dos anos, uma das assíduas ouvintes, nesse lugar privilegiado. O antigo campo de Ténis, rodeado de uma paleta de verdes e multi-fragrâncias que emprestam aos sons dos instrumentistas de jazz o espaço privilegiado em pleno parque! 




Ivo Perelman

O programa cruza duas linhas interessantes do jazz actual. A inclusão de nomes que têm apostado na inovação e na liberdade formal da música. É o caso do grupo formado por Ivo Perelman, Márcio Mattos e António "Panda” Gianfratti, estreia absoluta no Porto, hoje dia 3 Julho 2016.

O que se vai ouvir não foi anunciado, Prevê-se, no entanto, que surjam "legados combinados de John Coltrane, Albert Ayler, John Stevens e Derek Bailey".





Nani Garcia
compositor, músico

Numa outra linha, projectos que dão ao jazz uma dimensão cinematográfica, como o Nani García Cinematojazzia, com o trio do pianista acompanhado por um quarteto de cordas que vai interpretar composições que García destinou ao grande ecrã. 




Slow is Possible
https://www.facebook.com/slowispossible/

No último concerto dois grupos. Slow is Possible com 'Hunting Weather', inspirado num poema de Charles Bukowski.



Red Trio


Red Trio numa versão pouco ouvida, a eléctrica. Este estreia, a parceria com o finlandês Raoul Bjorkenheim, guitarrista bem conhecido dos "apreciadores das edições da ECM e da Rune Grammofon, bem como dos cruzamentos do jazz com o rock".

Confesso que dos três concertos, aquele que se identifica mais com o jazz que gosto de ouvir vai ser o concerto de Nani García

Lá estarei nesse aprazível recanto do parque de Serralves, onde os sons de jazz se fazem ouvir em sintonia com a música de fundo dos pássaros e o sopro da brisa nas folhas das frondosas árvores em volta do campo de ténis,em final de tarde.


G-S

Fragmentos Culturais

03.07.2016
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