Sunday, November 27, 2016

Elena Ferrante, a insondável : Escombros, edição portuguesa





Escombros/ Elena Ferrante
Relógio d'Agua editores

Escombros de Elena Ferrante, (2003), com tradução de Margarida Periquito, vai ser editado no próximo dia 29 de Novembro. Contém um conjunto de escritos pessoais da autora italiana cuja verdadeira identidade continua desconhecida. Este anonimato tem sido alvo de muitos artigos de opinião e alguma 'extrapolação'. A ler o artigo Elena Ferrante, literary storm as Italian Reporter 'identifies' author. Será que o colunista 'identificou' mesmo? 





 La Frantumaglia
Elena Ferrante

Escombros cujo título original é La Frantumaglialeva-nos aos bastidores do trabalho de Elena Ferrante, "permitindo-nos um olhar para as gavetas de onde saíram alguns dos seus romances e para as suas relações literárias com o mundo clássico grego e latino" e com Elsa Morante, (mulher de Alberto Moravia, dois escritores, também italianos, que muito admiro) e outros autores que ama. 




Elsa Morante

"The majority of Morante’s leading characters use autobiography as a way to seek self-therapy and hope."

Ferrante responde a perguntas que leitores e jornalistas lhe fizeram ao longo dos anos. 

Defende que quem escreve um livro faria bem em pôr-se de parte e deixar que o texto siga o seu percurso.

"Eu acredito que os livros não precisam dos seus autores para nada, depois de escritos. Se tiverem alguma coisa para contar, mais cedo ou mais tarde encontrarão leitores; se não, não."

Elena Ferrante in Escombros, 2016



Elena Ferrante
Gabriel Bouys/AFP/Getty Images

A vontade de manter a privacidade, como a escritora faz saber, vem de encontro a um artigo muito interessante que li há poucos meses Who cares who Elena Ferrante really is? She owes nothing.

"It does not matter who she really is. She is not accountable to us in any way. Oh, but apparently she must be treated like a fraud or a criminal or dodgy celeb and stripped of her privacy …"

Suzanne Moore, The Guardian/ Books

Questão sobre possível identidade da escritora, a que o New York Times/ Books contrapõe em Elena Ferrante : An Answer

"Ever since the first novel by Elena Ferrante was published in Italy in 1992, and especially since the sensational success of the four novels that make up the Neapolitan quartet (2011-2014), there has been much speculation about the writer’s identity."

Claudio Gatti, The New York/ Books

Será de todo o direito respeitar a vontade soberana de Elena Ferrante, o que nem todos os críticos/ colunistas defendem. Especulação vende mais.

Não vou deambular sobre possível crítica pessoal dos livros de Elena FerranteJá tantos o fizeram. É uma autora que anda na mão de muitos leitores. Seria um assunto sem interesse, para muitos. 

Vou deter-me um pouco sobre a especulação que gira à volta do anonimato da escritora.

Confesso que para mim a sua real identidade não é importante. O prazer de ler seus livros sobrepõe-se.

Considero, como a própria autora escreve, que a privacidade de um escritor ou uma escritora deve ser mantida, se é essa a sua expressa vontade. 

Até porque muito pouco acrescenta aos livros que apreciamos profundamente. Deleitemo-nos apenas com seus livros. E é tanto!

A imaginação é bem mais poderosa. Deixa-nos divagar sem esteios. 





Um Estranho Amor
Elena Ferrante
Edições Dom Quixote

Em EscombrosFerrante fala dos pensamentos e da ansiedade que sentiu quando o seu primeiro romance, Um Estranho Amor, foi adaptado ao cinema e de como é complicado para ela encontrar respostas sintéticas para as perguntas de uma entrevista (dada em 2015)

Elena Ferrante conta ainda 'das alegrias, trabalhos e angústias de quem narra uma história escavando dentro do seu universo pessoal de experiências e das lembranças, próprias e alheias.'





Montagem de capas de livros de Elena Ferrante
Observador

Elena Ferrante, na lista finalista The Man Booker International, é quase desconhecida, seus livros não. Apoiada numa escrita confessional, clara, e na imensidão de leitores, a sublime contadora de histórias, de identidade desconhecida, tornou-se uma obsessão. Por que razão?



História da Menina Perdida
(livro IV)
Elena Ferrante
Relógio d'Água

Nomeada para o Man Booker Prize International (2016) pelo último dos quatro livros, História da Menina Perdida, não saíu do anonimato. 

Ficamos a saber em Elena Ferrante makes Man Booker International shortlist que uma série televisiva está a ser desenvolvida baseada na sua sequela.

Raramente os livros dão boas adaptações ao cinema ou televisão. Especialmente se já lemos as obras antes de ver os filmes. É sempre uma visão, nem sempre conseguida, de um realizador. A nossa visão pode ter ido mais além.

Aconteceu-me com A Rapariga do Combóio baseado no livro de  Paula Hawkins, The Girl on the Train, apesar da excelente actriz Emily Blunt ser a protagonista. Apenas um exemplo, dado que vi o filme em exibição nas salas de cinema há duas semanas.





A Amiga Genial
(livro III)
Elena Ferrante
Relógio d'Água

Mas não é o anonimato ou o enigma que dá início à narrativa de A Amiga Genial (livro III que explica o poder assombroso que Elena Ferrante tem sobre os leitores. É mais provável que seja o mistério da vida. Da nossa vida. 

Em quatros volumes escritos como um único romance, Elena Ferrante consegue 'agarrar-nos'. As suas personagens colam-se a nós.




Storia della bambina perduta
Elena Ferrante

Em 2016 fora-lhe 'entregue' o Premio Strega pelo livro Storia della bambina perduta.

"Storia della bambina perduta è il quarto e ultimo volume della saga L’amica geniale. Le due protagoniste Lina (o Lila) ed Elena (o Lenù) sono ormai adulte, con alle spalle delle vite piene di avvenimenti, scoperte, cadute e “rinascite”.  

(...)

Il romanzo è soprattutto la storia di questo rapporto di amicizia, dove le due donne si scontrano e s’incontrano, s’influenzano a vicenda, si allontanano e poi si ritrovano, si invidiano e si ammirano. Attraverso nuove prove che la vita pone loro davanti, scoprono in sé stesse e nell’altra sempre nuovi aspetti delle loro personalità e del  loro legame d’amicizia."


Premio Strega





Helena Ferrante
créditos: Helder Oliveira

"One truth remains: if you want to know who Elena Ferrante is, there is a very simple way to find out. Read her books."

Suzanne Moore, The Guardian/ Books

Num excerto que podemos ler online no site da Relógio d'Água, Elena Ferrante escreve uma carta sobre a sua reacção ao Prémio Procida, Isola di Arturo - Elsa Morante, que distinguiu o seu primeiro livro. A autora não compareceu para receber o prémio. E explica:

"Esta história do prémio está a perturbar‑me muito. Devo dizer‑te que aquilo que me faz mais confusão não é o meu livro ter sido premiado, mas o prémio ter o nome de Elsa Morante. A fim de escrever algumas linhas de agradecimento, que fossem acima de tudo uma respeitosa homenagem a uma escritora que muito amei, pus‑me à procura, nos livros dela, de passagens adequadas à circunstância. 

(...)

Não irei receber prémios, se mos quiserem dar. (...) Só intervirei por escrito, mas procurarei limitar também isso ao mínimo indispensável.

(...)

Gosto muito daqueles livros misteriosos, de tempos antigos e modernos, que não têm um autor certo mas que tiveram e têm uma intensa vida própria. Parecem‑me uma espécie de prodígio noturno, como quando, em pequena, esperava os presentes da Befana, ia para a cama muito agitada, e de manhã acordava e lá estavam os presen‑ tes, mas a Befana, ninguém a tinha visto. Os verdadeiros milagres são aqueles que ninguém chegará a saber quem os fez, quer sejam os pequenos milagres dos espíritos secretos da casa, ou os grandes milagres que nos deixam realmente de boca aberta. Ficou‑me este desejo infantil de maravilhas, pequenas ou grandes, ainda acredito nelas. A ler integralmente online.



L' Amore Molesto
Elena Ferrante

Como a autora não foi receber o Prémio Primeira Obra, atribuído a Um Estranho Amor pelo júri da 6.ª edição do Premio Procida, Isola di Arturo — Elsa Morante (1992), enviou à editora a carta aos jurados acima transcrita (excertos), que foi lida durante a cerimónia de entrega do prémio. 

O texto foi publicado nos Cahiers Elsa Morante, com organização de Jean‑Noël Schifano e Tjuna Notarbartolo, Edizioni Scientifiche Italiane (1993), sendo agora divulgada neste livro, com ligeiras alterações. 

Aguardamos com muita expectativa, o volume IV Escombros. Faltam só dois dias.

"I don't protect my private life. I protect my writing, I protect it from the same urgency to publish."

Elena Ferrante, an interview, 2015


G-S

Fragmentos Culturais

27.11.2016
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Friday, November 11, 2016

Leonard Cohen : A escolha merecida Prémio Nobel da Literatura 2016






Leonard Cohen 1934-2016
créditos: Getty Images

"It is with profound sorrow we report that legendary poet, songwriter and artist, Leonard Cohen has passed away.

We have lost one of music’s most revered and prolific visionaries."



Leonard Cohen, Facebook


2016, um ano arrasador para música. David Bowie, Prince,  Toots Thielemanse agora Leonard Cohen

Para mim, o verdadeiro merecedor do Nobel Prize de Literatura 2016Dylan ganhou o Nobel da Literatura. Mas Cohen o teria merecido mais. 

Não fui contra o facto de um Prémio Nobel da Literatura não ter sido entregue a um escritor propriamente dito. É óbvio que muitos e extraordinários escritores poderiam ter sido galardoados este ano. Tantos o teriam merecido em anos anteriores.

Mas os tempos estão diferentes. The times they are changin' já cantava Dylan em 1964.

Lembro que a literatura, por definição, é a “arte de compor obras em que a linguagem é usada esteticamente, procurando produzir emoções no receptor”. 

E Bob Dylan é genial neste ponto. No futuro, poderá ser lembrado como tendo tido o condão de nos fazer compreender que a literatura não é uma arte 'estanque'.


Leonard Cohen
créditos: AFP/Getty Images

Mas voltemos a Leonard CohenDeixa uma obra única e a certeza de que não voltará a aparecer outro como ele. E quando ontem se anunciou a morte de mais um grande nome das artes, sofre-se outra perda irreparável para o mundo da música. Daí, insistir que Cohen teria sido o merecedor ideal para receber ou pelo menos saber, ainda em vida, que o Prémio Nobel da Literatura lhe teria sido atribuido.

Não estou sózinha neste sentimento de merecimento para Cohen. Foram muitos os que se exprimiram nesse sentido. O último artigo no ABC, hoje mesmo publicado, é mais uma demonstração.

O cantor, escritor, compositor, poeta, visionário canadiano morreu ontem, quinta-feira 10 Novembro, aos 82 anos. Hoje sabe-se que foi segunda-feira dia 7 Novembro, mas só ontem foi anunciado.

Leonard Cohen acabara de publicar, há poucas semanas, o álbum You Want It Darker. Foi afinal o seu último álbum. Premonitório?






"Estou pronto para morrer. Espero que não seja demasiado desconfortável."
Leonard Cohen, entrevista no The New Yorker (Outubro de 2016)


Marianne & Leonard
créditos: Autor não identificado
http://wpmedia.montrealgazette.com/
A morte da sua musa e companheira Marianne Ihlen em Agosto deste ano, abalou profundamente Cohen:
"Our bodies are falling apart and I think I will follow you very soon,” Leonard Cohen escreveu a Marianne, duas horas antes da sua morte (...) “Know that I am so close behind you that if you stretch out your hand, I think you can reach mine.”


Marianne A Love Story/ Kari Herthamar
https://www.leonardcohenfiles.com/
Tenho por convicção profunda que todos sentimos ou viremos a sentir como que a premonição dos nossos últimos dias desta passagem.

Aconteceu com David Bowie e o seu álbum Black Star e agora Cohen com You Want It Darker.




Leonard Cohen Prémio Príncipe de Asturias
Literatura 2011

Foi reconhecido o seu valor no campo da Literatura em 2011 quando lhe foi entregue o Prémio Príncipe de Asturias.

O Júri galardou Cohen:the  Canadian poet and novelist Leonard Cohen for a body of literary work that has influenced three generations of people worldwide through his creation of emotional imagery in which poetry and music are fused in an oeuvre of immutable merit. The passing of time, sentimental relationships, the mystical traditions of the East and the West and life sung as an unending ballad make up a body of work associated with certain moments of decisive change at the end of the 20th and beginning of the 21stcentury."





You Want It Darker/ Leonard Cohen, 2016

Mais do que suficiente para lhe ter sido entregue o Prémio Nobel da Literatura 2016 em lugar de Bob Dylan, cuja carreira admiro, mas não tanto como admiro Cohen e a sua obra ímpar, no campo das letras (lírica) e no campo da literatura (vários livros publicados).

"As pessoas perguntam-me se eu adapto os meus poemas à música, mas acho que sei qual é a diferença entre uma letra de uma canção e um poema."

Leonard Cohen, entrevista à BBC (1986)

Modéstia. Bem mais do que letras de canções. A lírica de Leonard Cohen é de infindável beleza e harmonia. 

Em 2014, a Universidad de Oviedo "ha creado la cátedra Leonard Cohen, Premio Príncipe de Asturias de las Letras 2011, con el objetivo de difundir el legado del artista quebequés e impulsar la creatividad de los jóvenes en el campo de la música y la poesía.







Magnified, sanctified, be thy holy name

Vilified, crucified, in the human frame

A million candles burning for the love that never came

You want it darker
We kill the flame

If you are the dealer, let me out of the game

If you are the healer, I’m broken and lame

If thine is the glory, mine must be the shame

You want it darker
Hineni, hineni

Hineni, hineni

I’m ready, my lord

Hineni

Hineni, hineni

Hineni

Leonard Cohen, You Want It Darker 

G-S

Fragmentos Culturais

11.11.2016
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Sunday, October 23, 2016

Instantes




Harold Lloyd/Flickr

Vivam, apenas
Sejam bons como o sol.
Livres como o vento.
Naturais como as fontes

Imitem as árvores dos caminhos
que dão flores e frutos
sem complicações.

Mas não queiram convencer os cardos
a transformar os espinhos
em rosas e canções.

E principalmente não pensem na Morte.
Não sofram por causa dos cadáveres
Que só são belos
Quando se desenham na terra em flores.


Vivam, apenas.
A morte é para os mortos.


José Gomes Ferreira, Vivam, apenas


GS

Fragmentos Culturais

24.10.2016
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